O Homem e a Aranha
Aluguei ontem aquele filme, "Homem-Aranha 2". Deu na telha, fui lá e aluguei. Aquela história sempre me intrigou, tem algo ali que sempre me chamou a atenção... O conflito de um jovem que tem de decidir entre salvar o mundo ou ter uma vida normal. Entre gozar dos seus poderes ou simplesmente curtir a vida.
Mas ontem, ao rever o filme e desvendar todos os inúmeros making-offs e extras do DVD, percebi algo mais. Percebi que aquilo não era só comigo. O Homem-aranha é uma saga universal, que reflete conflitos inerentes ao ser humano. E nós temos muito a nos identificar com o pobre Peter Packer...
Vejamos!
Peter é um cara nerd, esquisito, desengonçado, que sonha com um amor impossível com a vizinha. Ignorado por todos, motivo de chacota para os poucos que percebem que ele existe, em meio à típica escola americana em que não há lugar para os diferentes que não se adaptam, os "loosers".
Um dia, porém, ele é picado por uma aranha mutante, que lhe dá poderes magníficos: um sentido especial, propiciando uma nova maneira de ver o mundo; uma força descomunal para enfrentar as dificuldades; e a capacidade de construir uma teia fortíssima, para uso acordo com sua criatividade: de voar entre prédios a segurar um helicóptero em pleno ar. A princípio, quando descobre esses poderes, ele pensa em usá-los para resolver seus problemas: não ser mais motivo de chacota, ganhar dinheiro, comprar um carro, sair com sua garota. Mas descobre que o mundo não é tão simples assim...
Tenta usar seus poderes pra ganhar dinheiro, mas não recebe o pagamento que merecia, por pura malandragem de quem prometera. Se revolta, mas não pode fazer nada no momento. Subitamente, porém, o tratante que lhe enganara é assaltado, e nosso herói tem, por um segundo, a possibilidade de tentar segurar o ladrão, ou simplesmente não fazer nada. Num ímpeto de vingança contra o malandro que lhe passara a perna, ele opta por não fazer nada. Sente-se, então, com 100 anos de perdão...
É o sentimento que assola a todos, hoje em dia. A impressão de que ninguém olha por nós, só há malandros neste mundo. Quem devia nos proteger só quer saber de nos roubar, se aproveitar da nossa impossibilidade de agir, explorar dos mais fracos. Nos vemos de mãos atadas, sem poder fazer algo pela nossa própria liberdade, e por vezes da liberdade dos outros. E, quando temos nas mãos algum segundo de poder, não queremos perder a oportunidade de nos saciar, de pelo menos uma vez não passamos como bobos. "Se não podemos mudar tudo, pelo menos nós é que não iremos sair sofrendo", é o que pensamos... Afinal, "a vingança também é um modo de fazer justiça: 'Olho por olho, dente por dente', dizia uma lei. Se o outro não se importa comigo, tenho que fazê-lo reconhecer que isso é errado. É questão de justiça ele pagar o que deve, de um jeito ou de outro"...
Mas Peter, mais uma vez, descobre que as coisas são bem mais complicadas. Ao não fazer nada, ele deixou de combater o mal. Deixou livre um criminoso que, horas depois, assassinou seu tio Ben, que para Peter era um pai, ainda que em momentos de impulsividade ele não reconhecesse isso. O tio morreu simplesmente por não ceder ao mal, não aceitava dar seu carro ao ladrão. Como reconheceu Peter ao relembrar desse fato, anos depois: "Meu tio morreu porque foi a única pessoa que fez a coisa certa, naquele dia".
Naquele dia Peter entendeu que seu tio fora, na sua vida, mais que alguém que representou o papel de pai. Foi um anjo que lhe ensinara a sua primeira grande lição: "A grandes poderes correspondem grandes responsabilidades".
E começa a encarar a vida de herói, dedicando-se a lutar por causas realmente importantes, a salvar vidas. Não tem nenhuma recompensa; pelo contrário, a imprensa taxa o herói de vilão em nome do espetáculo; o Homem-Aranha ganha o ódio de seu melhor amigo Harry (inconformado com o fato de ele ter matado seu pai, que Harry não sabia ser um vilão), e Peter tem que abrir mão da paixão por Mary Jane, para a própria segurança da garota. E tudo isso sem contar a solidão de não poder revelar a ninguém quem ele verdadeiramente é; uns conhecem o Homem-Aranha, outros o Peter Packer, que continua sendo o "sonso" de sempre, o azarado que tem de vender a imagem de seu próprio alter-ego para um jornalista sem caráter, em troca de um trocado qualquer.
Após algum tempo nessa vida de herói, então, o conflito volta a se revelar. No segundo filme da série, Peter cada vez mais sente na pele todo o peso de ser um herói. As grandes responsabilidades, somadas à sua natural distraibilidade e dificuldade de organização (Peter parece ter traços do que a psiquiatria chama de DDA, "Distúrbio de Défcit de Atenção", que na verdade não seria bem um distúrbio, mas uma forma diferenciada de funcionamento cerebral, caracterizando atenção instável, impulsividade e hiperatividade mental, mas também alta criatividade, energia, inovação e ousadia), fazem com que ele não consiga dar conta das suas responsabilidades cotidianas. E agora já leva uma vida mais adulta, tem que se sustentar, dar conta da faculdade, e resolver sua vida amorosa. Mas ele vive em outra realidade, nem lembra a data de seu aniversário...
É ele mesmo, com seus conflitos psicológicos, que faz seus próprios poderes irem enfraquecendo. A partir do momento em que se questiona sobre a vida que quer ter, sobre quem ele quer ser, a sua crença no super-herói que carrega dentro de si se enfraquece. Não tem mais certeza de quem ele é. A teia começa a falhar, bem na hora em que ele mais precisa. Já não é tão fácil escalar paredes, sua visão vai deixando de ser perfeita.
Ele não sabe quem ele é. Procura ajuda, e o médico tenta ajudar: "será que é mesmo pra você ser um super-herói?" Sempre temos escolha. E onde estão os seus sonhos?...
Estão na casa de um desejo maduro. Talvez Peter não se dê conta, mas os sonhos que têm nesse momento já são outros. Aquilo que ele quer já não é mais o que queria na época que a aranha o picou; naquela época lhe bastava simplesmente não ser mais um "looser", um perdedor, motivo de chacota, queria "somente" ser respeitado por todos, ter um carro pra impressionar. Mas, agora, seus sonhos são mais nobres, mais adultos: quer ser um brilhante cientista (e sabe que tem potencial pra isso), quer poder se dedicar e ajudar sua tia, reconhecendo e retribuindo o apoio que ela sempre lhe deu, e sonha em viver com Mary Jane - agora um grande amor, e não mais somente uma vizinha encantadora...
E de repente ele se sente no direito de querer uma vida só dele, e não mais viver "os sonhos do tio"...
"Sempre que falamos sobre honestidade, lealdade, justiça... Sempre achei que você teria coragem de realizar seus sonhos nesse mundo", diz uma voz em sua cabeça. "Não, tio Ben. Esses são os seus sonhos, e não os meus. Sou apenas Peter Packer. Homem-Aranha, nunca mais", responde.
E volta a usar óculos, a tropeçar, a ter seus defeitos como qualquer ser humano. "Agora eu sangro!", ele comemora. E pode se dedicar aos estudos, ser um aluno brilhante na faculdade. Consegue ser pontual, já pode voltar a tentar reconquistar o amor de Mary Jane, e saborear um hot-dog enquanto a polícia se preocupa com os criminosos.
Mas... até quando ele está sendo ele mesmo?...
Ao passear pela rua, se vê arriscando a vida para salvar uma criança em um incêndio (e sem receber nenhum grande mérito por isso). E cai em si... Não foi a aranha que lhe fez herói, nem tão pouco o tio Ben; foi ele mesmo. "Não tem jeito, ser herói faz parte de mim, está no meu sangue", ele deve ter pensado. E ver que ainda existiam mais vítimas o faz parar para pensar. Para repensar-se...
"Mas... Será que eu não posso ter o que eu quero? O que eu preciso?... O que eu devo fazer??"
É interrompido em seus pensamentos por uma vizinha oferecendo um bolo de chocolate - um pequeno prazer da vida. A garota, mais desengonçada que ele, é uma das personagens secundárias que acreditam nele. Como tantos que, mesmo não sabendo "tudo" o que ele é, têm uma grande confiança nele. E Peter então ouve de sua tia, uma das pessoas a quem ele mais se sentia devedor por não ter uma "vida normal", um desabafo sobre o sumiço do Homem-Aranha, que é quase uma súplica:
"Há poucos indivíduos voando por aí para salvar senhoras como eu. E Deus sabe como as crianças precisam de heróis! Gente corajosa, altruísta, dando exemplo para todos nós. Todos adoram heróis... Acredito que há um herói dentro de todos nós... Que nos mantém íntegros. Que nos dá força. Nos enobrece. E, por fim, nos deixa morrer com dignidade. Mesmo que, às vezes, seja preciso ser firme e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos..."
A tia May sabia quem ele era? Talvez nem sabia que sabia. Como revelou Mary Jane, quando ele lhe revelou a verdade: "Acho que eu sempre soube, esse tempo todo, quem você era, de verdade". Quem ama conhece, sabe quem o outro é. Mesmo que não conheça os detalhes, que o outro insiste em manter em segredo, quem ama conhece a essência.
E talvez a grande lição que Peter tenha aprendido aqui é que, se a vida é feita de escolhas, a confiança nos outros é o que faz com que elas sejam menos penosas. Revelando a verdade, uma outra realidade é possível. É através da verdade que é possível viver seu amor com Mary Jane: sabendo quem ele é, ela passa a ter a liberdade de escolher ficar com ele, mesmo com todos os riscos. É através da verdade que ele retira dos ombros da tia a culpa pela morte do tio Ben, revelando-lhe sua culpa no incidente. É através da verdade que ele faz o vilão Dr. Octavius, o símbolo do homem bom que se distancia dos seus ideais pelo excesso de confiança na ciência, voltar a si mesmo, lembrar quem ele era, e corrigir os erros que ele próprio cometera. E talvez, se Peter tivesse contado a verdade ao amigo Harry à tempo, a loucura não o teria consumido a ponto de o desejo de vingança contra o Homem Aranha ser mais forte que a longa amizade por Peter... A mentira de Peter por tanto tempo talvez tenha alimentado a locura no coração de Harry a ponto de a verdade não interessar tanto mais quanto o ódio.
Mas há quem ainda acredite na verdade, apesar de tudo. Para Mary Jane, a verdade foi o alívio que faltava a seu coração. "Não podemos viver a vida pela metade, sendo metade do que somos", diz ela para si e para seu amado. E escolhe a verdade cruel, mas que lhe complete, do que uma mentira que lhe deixaria sempre em falta, o casamento com um rapaz "perfeito". É como escolher a pílula azul de Matrix...
Bem, mas a história ainda não acabou. Mesmo não conhecendo a história dos gibis, posso prever que "Homem-aranha 3" trará novos conflitos a maltratar o pobre jovem nerd. Além da loucura iminente de Harry (a se tornar talvez o maior inimigo do Homem-aranha, justamente por ter sido o maior amigo de Peter Packer), com certeza não será nada fácil a Mary Jane lidar com as conseqüências de abandonar um casamento seguro para viver com um herói de quem até a sociedade é inimiga, às vezes. E Peter ainda está sem dinheiro, é bom lembrarmos! Será que vai continuar se subjulgando ao sistema, tirando fotos de si mesmo para vendê-las ao jornalista patético que só quer saber do lucro que difamar a imagem do Aranha pode lhe dar? Será que vai conseguir ser um motoboy capaz de cumprir os prazos loucos desse mundo corrido? Ou será que enfim vai conseguir usar todo seu potencial e criatividade para descobir uma forma de se sustentar que seja condizente com toda a maturidade e grandeza de espírito que ele agora possui?...
Pois é. Para Peter, o fato de ter se assumido tanto como "Homem" quanto como "aranha", trará com certeza ainda mais dificuldades à sua jovem vida. E, mesmo que ele as resolva ao fim do 3º filme, e mesmo que não haja uma continuação da triologia, com certeza ele não viverá "feliz para sempre". Cada vez os obstáculos serão maiores, e sempre que superar um conflito, outro mais profundo virá...
Mas, a cada batalha, ele terá a oportunidade de descobrir um pouco mais toda a beleza de ser um Homem-aranha. Se sentirá cada vez mais seguro, e mais consciente dos ideais que o levam a ser um herói, sem deixar de ser um homem, um ser-humano com todas as virtudes e defeitos, todas as dores e delícias de ser o que é. A escolher fazer o certo, e descobrir que isso não necessariamente o impede de realizar seus sonhos! E sentir o prazer de voar se apoiando em sua própria teia, de ter uma vista da cidade que ninguém mais pode ter. E, sobretudo, a felicidade inenarrável de ajudar os outros, salvar vidas...
E, se seus poderes não o podem ainda fazer mudar o mundo inteiro, podem ao menos dar esperança a muita gente. Podem fazer velhinhas como sua tia ainda acreditarem em jovens idealistas, podem fazer crianças comer mais verduras, podem fazer com que jovens não prefiram simplesmente fingir que não vêm quando se deparam com um assaltante espancar um inocente, como ele próprio fazia. O Homem-Aranha vem para que ninguém mais se sinta inútil, de mãos atadas, sem poder fazer nada a não ser lutar para defender o seu próprio umbigo, obedecendo apenas ao "instinto de sobrevivência", o único que nos restaria...
Quantas vezes nos esquecemos dos sonhos do "anjo" que há dentro de nós, caracterizado pelos ideais de justiça e honestidade do tio Ben, achando que eles são contrários aos nossos desejos pessoais, aos nossos sonhos de amar, de ter uma vida realizada e sustentável... Na verdade, só quem conseguir ter sua realização pessoal será capaz de realizar o sonho de construir um mundo um pouquinho melhor - e vice-versa. E, conseqüentemente, será mais feliz. Não para sempre, mas para si mesmo...
O homem-aranha nos mostra que sempre podemos escolher. Afinal, cada um tem um herói dentro de nós, como dizia a tia May...
E aí? O que você faz com o seu lado "aranha"?...
Juiz de Fora, 14.03.07
Canto da mulher latino-americana
Descreve do jeito que bem entender
Descreve, seu moço
Porém não te esqueças de acrescentar
Que eu também sei amar
Que eu também sei sonhar
Que meu nome é mulher
Descreve meus olhos
Meu corpo, meu porte
Me diz que sou forte, que sou como a flor
Nos teus preconceitos de mil frases feitas
Diz que sou perfeita e sou feita de amor
Descreve a beleza da pele morena
Me chama de loira, selvagem, serena
Nos teus preconceitos de mil frases feitas
Diz que sou perfeita e sou feita de mel
Descreve a tristeza que tenho nos olhos
Comenta a malícia que tenho no andar
Nos teus preconceitos de mil frases feitas
Diz que sou perfeita na hora de amar
Descreve as angústias da fome e do medo
Descreve o segredo que eu guardo pra mim
Nos teus preconeceitos de mil frases feitas
Diz que sou perfeita, qual puro jasmim
Descreve, seu moço, a mulher descontente
De ser objeto do macho e senhor
Descreve este sonho que levo na mente
De ser companheira no amor e na dor
Descreve do jeito que bem entender
Descreve, seu moço
Porém não te esqueças de acrescentar
Que eu também sei amar
Que eu também sei lutar
Que meu nome é mulher.
(Pe. Zezinho, scj)
Mineirices (2)
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo
(dizia um mineiro)
E eu sozinho rapaz entre águas da piscina
olho para as árvores no morro em frente
e distingo uma vaquinha a saborear calmamente
seu doce capim no pasto.
Ela olha pra mim, sem parar de mastigar.
Deve se indagar o que seria aquela coisa branca
esparramada naquela água
refletindo o céu azul.
(Ou simplesmente deve estar olhando pra mim enquanto rumina, sem indagar nada).
Hã? Se meu pai tem uma majestosa piscina numa exuberante fazenda de gado selecionado e capim tão puro que dá até vontade de ruminar também? Não... Pelo menos enquanto ele tá acordado. Por enquanto temos é numa piscininha mil-litros na lage de casa, mesmo... Se a vista da casa dos meus pais, ao fundo, é uma bonita visão de Carangola (com direito a uma paisagem privilegiada de dois dos mais “respeitáveis” morros da cidade), de frente ela dá pra nada mais, nada menos que um pasto muito mal cuidado, com vacas idem. E cá estou eu, a admirar essa natureza toda...
Programa de pobre... Programa democrático, uai!
Logo em frente à casa, de costas pro pasto, tem uma pequena mansão
Não, não foi uma história de amor avassaladora. Dizem que era a mulher dele mesmo, que enchia tanto o saco, era tão insuportável, que ele simplesmente não agüentou mais. Foi de carro até um canto de uma estrada, sacou o revólver e deu-se dois tiros. Um com o cano na boca, e o outro na testa. Como conseguiu tal proeza? Isso o povo não sabe...
Bem, mas que ele se matou, é fato. E que a mulher, seja lá quem for, virou uma das mais mal-faladas da cidade, também é fato. “Riqueza não traz felicidade”, diriam alguns. “Pobreza também não”, diria eu...
“Se bem que o pobre não precisa passar um camelo pelo buraco de uma agulha pra descobrir as bem-aventuranças da vida”...
Lá em cima, alheios a isso tudo, grandes pássaros negros voam imponentemente, aproveitando melhor que eu todo esse azulão do céu de hoje. Subitamente fico com uma certa inveja... Quem me dera voar tranqüilo assim!
Mas aí eu lembro que já voei mais alto que eles...
Sim, era um avião de passageiros... Nada demais. Mas pra mim, que ainda não sou um executivo que voa do Rio a São Paulo como quem pega um busão pra ir pro trabalho, ver aquele trem se levantando do chão e aquela cidade maravilhosa ficando lá embaixo, a vista subindo pelas nuvens até elas parecerem um mar branco a dividir o céu e a terra... foi simplesmente mágico. E este mineirinho metido a poeta ficou a imaginar aquilo tudo visto não de uma janelinha em cima da asa, mas da cabine do primeiro avião capaz de subir tão alto assim, indo onde nenhum ser humano jamais tinha ido antes. O sujeito deve ter se maravilhado tanto quanto o primeiro astronauta a ver a Terra do espaço... imagina: ter aquela vista maravilhosa lá de cima!... Vislumbrar, com os próprios olhos, quão grande é este mundo que a gente teima em enxergar só até o horizonte...
Pois é, mas pro executivo isso é tão banal quanto olhar aqueles urubus que tão lá em cima, planando
Lá em cima os carniceiros são só grandes e imponentes pássaros...
Aqueles moleques no alto do pasto também sabem aproveitar o céu. De lá a pipa que eles soltam não tem perigo de se enroscar nos fios, eles não atrapalham ninguém e nada atrapalha a brincadeira.
Só o cerol...
É, na verdade um tem que atrapalhar a brincadeira do outro. Pra própria brincadeira ter graça. E se a pipa cair, não tem mais dono. É “boiada”, é de quem pegar. Quem aceitou brincar, sabia das regras. E vai ter que correr, soltar muros, pular terraços pra recuperar a própria pipa...
São as regras do jogo. E o céu ganha mais alguns pontinhos coloridos, a balançar e rodar com o vendo...
Lá embaixo minha mãe chama. Peraê, deixa só eu me secar! O sol já tá ficando frio, daqui há pouco se esconde atrás do pasto e eu mais uma vez vou ter que me contentar com o nosso pôr-do-sol sem sol. Mas tudo bem, quando eu subia de ônibus pra faculdade em Juiz de Fora, circundando o morro do imperador naquela montanha-russa temática “Carnaval de Salvador” (leia-se: “sinta-se uma pipoca atrás do trio” – com direito inclusive aos odores característicos...), que ainda ousam chamar de “um dos melhores transportes coletivos do país”, eu podia ver um pôr-do-sol maravilhoso por dia. Sim, o meu privilégio de ter de enfrentar pouco tempo de viagem de busão não tira a revolta das condições que todo mundo ali é obrigado a enfrentar... Sinceramente, não sei como as velhinhas sobrevivem a uma viagem daquelas!
Mas tudo bem, isso não vai tirar o meu bom humor agora. Tem turista que paga muito mais por vistas nem sempre tão lindas assim... A ganância dos poderosos desta cidade só conseguiu atrapalhar as viagens de ônibus, o céu ainda continua lindo (ainda!...).
Heim? Ah, tá, mãe! Desculpa, esqueci que não estou no ônibus... Quer dizer... nada não! Já deu pra me secar, tô indo já!...
Pois é...
Drummond não sabia que a história dele era mais bonita que a de Robson Crusoé.
E... por que raios eu ainda teimo em insistir
que a minha não pode ser tão linda quanto a dele?...
Carangola, 22.02.07
Mineirices (1)
Há várias formas de se encantar com a beleza.
Há meios e meios de encarar o que é belo
Há belezas óbvias,
Outras nem tanto.
Há aquelas que saltam ao olhar
E há outras que precisam ser desvendadas...
Esse é o risco, por exemplo, de morar de frente pro mar
De ter o Atlântico à sua disposição, sempre que quiser...
O mar tem uma beleza óbvia
Então a grandeza pode virar rotina
Não que alguém enjoe do mar; ele não permite ser menosprezado.
Mas muitos, de tanto usarem biquíni e óculos escuros,
Acabam não se aprofundando na beleza mais profunda
Acabam buscando o belo que bóia na praia
Quando podiam ter toda a fundura...
Mas, quando se é mineiro
(de corpo e de alma)
E só se vê o mar uma vez por ano,
A imensidão de águas é o mais sagrado dos templos
E a retidão do horizonte, simplesmente um milagre
O pôr do sol inunda os olhos mais que a água salgada
A areia branca é um mistério, simplesmente por ser
E mergulhar é consubstanciar-se ao infinito
Quando, pois, retirado o sal do corpo
Volta-se à casa, às montanhas
Louva-se a Deus por se sentir tão acolhido
Aconchegado entre os montes e rios
No silêncio da prece de relevo
E a volta é motivo para redescobrir toda a beleza
Que cisma em se esconder por entre os morros
Que estranha quem não conhece
E enjoa o seguro claustrofóbico
É belo se encantar com o mar
É simples ver Deus em milagres
Mas mais lindo
É lacrimejar o peito ouvindo Milton...
J.F, 13.02.07
Aos colegas formandos!
(turma “Valorizando as diferenças” - Psicologia UFJF 2002-2006)
O que Deus representa na nossa vida?...
Se fôssemos aplicar um questionário com essa pergunta a cada um de nós, formandos, com certeza as respostas seriam as mais variadas possíveis. E teria de ser uma pesquisa qualitativa, pois Deus não se quantifica. Não dá pra medir...
O fato é que, queiramos ou não, Deus estará sempre presente nas nossas vidas como psicólogos, seja no discurso e na vida de nossos clientes, seja quando tivermos de lidar com a delicada questão da religiosidade na psicologia, seja quando nos sentirmos tratados como se fôssemos Deus...
Mas... quando nos depararmos com casos em que o sofrimento humano ultrapassar a barreira da ciência, e a angústia que virmos tornar impossível a indiferença, a pergunta que irá gritar em nosso coração angustiado talvez seja: Onde está Deus?... Onde Deus estava, que permitiu que isso acontecesse? Como ele pôde deixar um próprio filho dele chegar a esse estado? Pra quê tanto sofrimento, meu Deus?...
E nem sempre teremos as respostas... Mas a faculdade nos ensinou, que, às vezes, é preciso devolver as perguntas. E poderíamos imaginar que Deus, como bom psicólogo, talvez esteja nos perguntando a mesma coisa: “Por que tanto sofrimento, meus filhos? Por que fazem sofrer tanto uns aos outros? O que vocês fizeram com o mundo que eu lhes dei, o que vocês fizeram com seus irmãos? Pra quê criar um mundo tão angustiante?”...
Sim, não fomos nós os culpados por esse mundo de angústia. Mas agora, ao nos declararmos psicólogos, e ainda por cima formados à base de investimento público, seremos sempre requisitados pela sociedade para resolver os mais diversos problemas do mundo. É aos psicólogos que todos vão recorrer, seremos em algum momentos verdadeiros pára-raios; e, embora não possamos resolver todos os problemas, ao tirar nosso registro profissional estaremos, de certa forma, assumindo uma grande responsabilidade perante a sociedade...
Me lembro de uma aula de uma grande professora... era um tanto carrasca, mas que naquele dia estava visivelmente emocionada, e nos perguntava: “até que ponto nós somos responsáveis pela saúde de quem está ao nosso lado? Até que ponto alguém tem responsabilidade pela vida de um outro qualquer, que cruzamos na rua?” E, ante o silêncio da turma, respondia: “Pois aproveitem. Aproveitem enquanto vocês ainda não são psicólogos. Por que, a partir do momento que forem, vocês serão plenamente responsáveis pela saúde integral de todos, sem exceção!”
Pois é... mas... lamento informar, nós não somos Deus!! E, se tem algo que nós nos cansamos de aprender na faculdade, é que a psicologia está longe de ser perfeita... Quem somos nós para mudar o mundo?... Quem somos nós para ser essa tal de “luz no mundo”?, poderíamos nos perguntar lendo o evangelho de hoje...
Mas... gostaria de partilhar com vocês algo em que eu acredito.
Eu acredito que, como psicólogos, é somente reconhecendo nossa posição de seres humanos, e lutando pela nossa humanidade, defendendo todas as dores e delícias de ser verdadeiramente o que somos, sem a pretensão de sermos perfeitos, que poderemos um dia chegar perto de alguma perfeição...
Acredito que, se ter alma de psicólogo é, sobretudo, acreditar no ser humano mais até do que ele próprio consegue acreditar em si mesmo, eu ouso dizer que, ao buscarmos o verdadeiro sentido de sermos psicólogos - independente se atuaremos ou não diretamente na profissão - nós estaremos chegando perto de Deus. Pois Deus é aquele que acredita em cada um de nós - muito além do que nós conseguimos acreditar nele...
Então, meu Deus, o que te peço neste momento é somente isto: quando eu e cada um destes meus colegas nos depararmos com pedidos como que o Senhor nos fez hoje, “sejam luz do mundo”, que nós não achemos que não é com a gente. Que nós não viremos o rosto, fingindo que o Senhor está falando com outro, que não tenhamos a coragem de simplesmente ignorar e deixar para lá!”
Pois sei que o Senhor não estará pedindo nenhum sacrifício de nós... Estará apenas dizendo: “não escondam sua vela embaixo da mesa... Vocês já brilham!! E ainda podem brilhar muito mais... Eu só não quero privar a humanidade de conhecer a luz que emana de vocês!” E, com certeza, se eu, e cada de nós fosse somente o pequeno fósforo que deveria ser, nós incendiaríamos o mundo todo...
E quando dissermos: “mas Pai, eu tenho medo!! Quem sou eu pra conseguir??”, que possamos sempre ouvir a Sua doce voz: “Coragem, meu filho. Eu estou com você.”
JF, 26.01.07
"Deveríamos brincar de Deus como Deus gostaria"
Veja - No livro A Linguagem de Deus, o senhor conta que era um "ateu insolente" e, depois, se converteu ao cristianismo. O que o fez mudar suas convicções?
Francis Collins - Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios.
Veja - Que questões são essas para as quais não encontramos respostas?
Collins - Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias. "O que acontece depois da morte?" ou "Qual é o motivo de eu estar aqui?". Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência - como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao - falharam. Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais.
Veja - A maioria dos cientistas argumenta que a crença em Deus é irracional e incompatível com as descobertas científicas. O zoólogo Richard Dawkins, com quem o senhor trava um embate filosófico sobre o tema, diz que a religião é a válvula de escape do homem, o vírus da mente. Como o senhor responde a isso?
Collins - Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. No ano passado foram lançados vários livros de cientistas renomados, como Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, que atacam a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda existem. É o que nos cabe.
Veja - O senhor afirma que as sociedades precisam da religião, mas como justificar as barbaridades cometidas em nome de Deus através da história?
Collins - Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé - essa, sim, imprescindível para a humanidade.
Veja - O senhor diz que a ciência e a religião convergem, mas devem ser tratadas separadamente. Como vê o movimento do "design inteligente" , em que cientistas usam a religião para explicar fatos da natureza que permanecem um mistério para a ciência?
Collins - Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha a que chamo de "lacuna divina". Lamento que o movimento do design inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o argumento de que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas, inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que existe. Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente - o mais citado é o "bacterial flagellum", um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos líquidos - são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses mecanismos se formaram gradualmente através do recrutamento de outros componentes. No curso de longos períodos de tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução.
Veja - Qual a sua leitura da Bíblia?
Collins - Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se achar que a interpretação que cada um de nós dá à Bíblia é a única correta, mas a advertência foi logo esquecida. Agostinho já dizia que não há como saber exatamente o que significam os seis dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia é equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do Gênesis 1 e 2 - e elas são discordantes. Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não levarmos ao pé da letra todas as passagens da Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10 000 anos a não ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da química e da biologia.
Veja - O senhor acredita na Ressurreição?
Collins - Sim. Também acredito na Virgem Maria e em milagres.
Veja - Não é uma contradição que um cientista acredite em dogmas e milagres?
Collins - A questão dos milagres está relacionada à forma como se acredita em Deus. Se uma pessoa crê e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e está pelo menos em parte fora dessa natureza, então é totalmente aceitável que esse Deus seja capaz de intervir no mundo natural. Isso pode aparecer como um milagre, que seria uma suspensão temporária ou um adiamento das leis que Deus criou. Eu não acredito que Deus faça isso com freqüência - nunca testemunhei algo que possa classificar como um milagre. Se Deus quis mandar uma mensagem para este mundo na figura de seu filho, por meio da Ressurreição e da Virgem Maria, e a isso chamam milagre, não vejo motivo para colocar esses dogmas como um desafio para a ciência. Quem é cristão acredita nesses dogmas - ou então não é cristão. Faz parte do jogo.
Veja - É possível acreditar nas teorias de Darwin e em Deus ao mesmo tempo?
Collins - Com certeza. Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?
Veja - Alguns cientistas afirmam que a religião e certas características ligadas à crença em Deus, como o altruísmo, são ferramentas inerentes ao ser humano para garantir a evolução e a sobrevivência. O senhor concorda?
Collins - Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua sobrevivência e seu progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles querem justificar tudo por meio da ciência, e isso acaba sendo usado para difundir o ateísmo.
Veja - Mas o altruísmo é visto hoje pela genética do comportamento como uma característica herdada pelos genes, assim como a inteligência. O senhor, como geneticista, discorda da genética comportamental?
Collins - Há muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes para explicar os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da evolução para cada um de nós é propagar o nosso DNA e tudo o que está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas não é assim, de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo e a religiosidade. Penso em Oskar Schindler, que se sacrificou por um longo período para salvar judeus, e não pessoas de sua própria fé. Por que coisas desse tipo acontecem? Se estou caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogar e decido ajudá-la mesmo pondo em risco a minha vida, de onde vem esse impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de certo e errado, a moral, que parece ser exclusiva da espécie humana.
Veja - Muitas religiões são contrárias ao uso de técnicas científicas que poderiam salvar vidas, como a do uso de células-tronco. Como o senhor se posiciona nessa polêmica?
Collins - Temos de ser sensíveis e respeitar as diferentes religiões no que diz respeito aos avanços científicos. Mas interromper as pesquisas científicas ou impedir que uma pessoa com uma doença terrível tenha uma vida melhor só porque a religião não aceita determinado tratamento é antiético. Por outro lado, existem fronteiras que a ciência não deve transpor, como a clonagem humana, que além de tudo não serviria para nada a não ser para nos repugnar. Cada caso tem de ser avaliado isoladamente.
Veja - Os geneticistas são muitas vezes acusados de brincar de Deus. Como o senhor encara essas críticas?
Collins - Se todos brincássemos de Deus como Deus gostaria, com esperança e amor, ninguém se abateria muito com comentários do gênero. Mas somos seres humanos e temos propensão ao egoísmo e aos julgamentos equivocados. O importante é não reagir de forma exagerada à perspectiva de que as pessoas possam vir a fazer mau uso das descobertas da genética, mas sim focar o lado bom dessa "brincadeira" . A maior parte das pesquisas genéticas busca a cura de doenças como câncer, problemas cardíacos, esquizofrenia. São objetivos louváveis. Para evitar o uso impróprio da ciência, o Projeto Genoma Humano apóia um programa que visa a preservar a ética nas pesquisas genéticas e certificar-se de que todas as nossas descobertas beneficiarão as pessoas e a sociedade.
Veja - O que esperar das pesquisas genéticas no futuro?
Collins - Nos próximos dois ou três anos vamos descobrir os fatores genéticos que criam a propensão ao câncer, ao diabetes e às doenças cardiovasculares. Isso possibilitará que as pessoas saibam que provavelmente vão desenvolver esses males e tomem medidas preventivas contra eles, com a ajuda do médico. Mais à frente, as descobertas das relações entre o genoma e as doenças farão com que os tratamentos e os remédios sejam personalizados, tornando-os mais eficientes e com menos efeitos colaterais.
Veja - O senhor acredita que Deus ouve suas preces e as atende?
Collins - Eu nunca ouvi Deus falar. Algumas pessoas ouviram. Não acredito que rezar seja um caminho para manipular as intenções de Deus. Rezar é uma forma de entrarmos em contato com Ele. Nesse processo, aprendemos coisas sobre nós mesmos e sobre nossas motivações.
“A gente se cobra demais...”
Era o que eu ia pensando pela rua, um dia após o Ruah (nosso encontro de universitários católicos aqui de JF). Tinha acabado de ter uma conversa com meu orientador de estágio pra avaliação dos trabalhos do ano, e percebi que ele não estava dando a mínima bola para as minha falhas, que tanto me preocupavam... Não que elas não tivessem sido graves, mas é como se ele me dissesse: “Calma, cara... estágio é pra aprender: tanto a trabalhar como a viver...”
E ia eu pela rua com isso na cabeça, e a cabeça ainda no Ruah... Lembrando de vários momentos em que percebi o quanto somos impacientes com os outros e com nós mesmos. Como se, diante de algo que eu percebesse que não deu certo, o melhor a fazer fosse reclamar e cobrar, seja do outro, de mim, de Deus...
E, de repente, vejo um senhor sentado na rua, envolto num cobertor, a mendigar a atenção dos que passavam: “Por favor, eu tô morrendo de frio...” Como reação automática, continuei andando, entretido com a mensagem de celular que estava passando na hora. Sem dar brecha para que ele me abordasse e eu ficasse sem saber o que fazer... aquilo que todo mundo costuma fazer nessas horas...
Mas, como sempre, não fiquei nem um pouco em paz com essa atitude. Me lembrei que a indiferença às vezes pode ser pior que um não. Terminei de dobrar a esquina, parei e fiquei pensando que eu tinha de fazer alguma coisa, que eu não ia guardar no peito, mais uma vez, aquela sensação de que eu não fizera nada para melhorar a situação de alguém que precisava, e podia até ter contribuído para piorá-la, ignorando-o...
E me vinha à cabeça mil pensamentos ao mesmo tempo: “o que devo fazer? O que é certo? Não tenho condições de mudar a vida desse pobre homem, mas tenho como dar algum apoio... mas o que dar?” Dinheiro provavelmente não ia adiantar (se não piorasse mais ainda), e eu não tinha nada ali que pudesse amenizar seu frio. O que fazer?...
Nisso me caiu a ficha. Lá estava eu, de novo, me cobrando demais... Como nós, cristãos, temos mania de fazer. Nos cobramos, o tempo todo, de sermos perfeitos, de sabermos sempre como e o que fazer, de termos a solução pra tudo. Como se Deus fosse um grande cobrador: façam a sua parte de forma perfeita, senão eu só farei a minha por pura misericórdia!” Como se Deus não fosse a Misericórdia em si... Como se Ele não fosse o Amor em si!...
Respirei fundo, atravessei a rua, comprei um salgado e mandei embrulhar. Hoje, tendo a oportunidade de pensar com calma, vejo que talvez tivesse sido melhor comprar um chocolate quente, um café, sei lá, algo que ajudasse a espantar o frio daquela tarde... Mas, na hora, eu só pensava: “O que eu fizer pode até não resolver nada, mas vou fazer com amor.” Me vinha à cabeça algo que ouvi numa pregação do Pe. Fábio de Melo, na qual ele recordava uma situação em que tinha perdoado um cara que bateu em seu carro por trás ao parar num sinal... mas ele não o tinha feito com todo o amor de que era capaz. “Se eu, além de não ter cobrado dele o pequeno prejuízo do meu carro, tivesse ainda pagado todo o conserto do fusquinha dele, que ficou destruído, mesmo a culpa da batida sendo toda dele... Acho que aquele homem nunca ia se esquecer na vida que tinha batido no carro de um padre!”, ele dizia.
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